Logística do leite: da gestão do relacionamento até os centros de controle operacional.

Logística do leite: da gestão do relacionamento até os centros de controle operacional.

Julho de 2021 – O leite sempre cumpriu um papel importante na alimentação da humanidade. O seu consumo remete a mais de 11 mil anos e, atualmente, bilhões de pessoas o consomem no mundo, sendo o Brasil o quarto país no ranking mundial de produção de leite, de acordo com Embrapa (Empresa Brasileira de pesquisa Agropecuária).   

Com o aumento da demanda, inúmeras fraudes foram deflagradas na composição do leite e o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA) instituiu normativas que ampliaram as exigências de qualidade que envolvem a política leiteira.  

Para acompanhar o crescimento do mercado consumidor e todas as exigências vigentes, o produtor rural tem profissionalizado a sua gestão por meio da participação em programas educativos e de incentivos, que elevam os níveis de qualidade e produtividade nas propriedades rurais. 

A produção de seus derivados na cadeia de suprimentos do leite desempenha um papel fundamental em sustentar a rotina dos profissionais envolvidos sem comprometer a qualidade, gerando cada vez mais eficiência operacional. O grande desafio da gestão logística no mercado leiteiro é promover fluidez em toda cadeia, pois hoje são inúmeros gargalos na operação que precisam ser monitorados incessantemente. Para isso, o grande agente transformador é a tecnologia. 

Captar milhões de litros de leite com a qualidade necessária exige uma gestão do relacionamento com a base fornecedora. O engajamento pode ser promovido com aplicativos móveis, que visam direcionar, instruir e informar os fornecedores, seja o transportador ou o produtor rural. 

Os gestores da logística de transporte interagem rotineiramente com inúmeras variáveis na sua rotina. Na relação com o produtor, por exemplo, comunicar-se é fundamental. Só assim é possível ter, em tempo hábil, informações como alterações de horário na ordenha, que impactam no atendimento da coleta e recebimento de prévias de disponibilidade de volume de leite, já que a capacidade de armazenar na fazenda não significa produção real.  

Diante deste cenário, a indisponibilidade do leite precisa ser analisada constantemente, seja por falta de produção na propriedade rural ou impedimentos físicos e de qualidade, como estradas bloqueadas, desvios não planejados e temperatura do leite entre outros. Sem essa gestão são inúmeros os impactos na densidade logística, que envolve deslocar um veículo para circular sem atingir a capacidade mínima ao fim da rota. 

O planejamento e a execução da coleta de leite no chamado transporte de primeiro percurso, ou seja, o leite cru transportado da fazenda para o laticínio, é uma das etapas mais suscetíveis a fraudes e falhas operacionais, por isso o carreteiro, exposto a condições adversas, precisa de direcionamento e apoio constante. Entregar na palma da mão todo o planejamento do dia e proporcionar um processo automatizado evitam grandes perdas. Além disso, ter a visibilidade do que fazer, como fazer e, de forma imperceptível, informar todas as ocorrências, desvios e gerar alertas, é um grande ganho para toda cadeia leiteira quando se aplica a tecnologia. 

Outro fator relevante propiciado por um sistema informatizado é ter a previsibilidade da chegada do veículo, permitindo evitar o trânsito nas plataformas de carregamento e recebimento das indústrias e postos, além de reduzir o tempo de descarga, que impacta na disponibilidade do veículo para outras operações. As informações das demandas por unidade fabris, recepções e expedições previstas precisam estar acessíveis, automatizadas e consolidadas para ter essa tomada de decisão em tempo hábil. 

Há ainda outras métricas fundamentais para a gestão da cadeia do leite, como avaliar se todas as coletas de leite nas propriedades respeitam o limite máximo de 48 horas e se há indicadores de temperatura e alertas de execuções fora do planejado, tal como desvios, registros fora de locais definidos e permanência em locais não permitidos. 

Ainda conectado ao processo de transporte do leite, os laticínios investem em processos de auditoria das normativas vigentes, que avaliam rigorosamente todos os aspectos sanitários, rotinas de análise do leite, condições dos veículos utilizados no transporte, na capacitação, identificação e disponibilização de equipamento de proteção individual para os motoristas. A utilização de plataformas dinâmicas que abrangem o processo de relacionamento com os produtores rurais permite acompanhar as demandas e o atendimento desses processos por meio das programações que entendem todo o fluxo de deslocamento dos veículos e promovem a rastreabilidade.  

Além disso, com o poder computacional das arquiteturas cada dia mais robustas e a automação nas conectividades, não apenas pessoas se comunicam, como também os objetos. Por isso, a instrumentação e o sensoriamento de veículos capturam dados automaticamente e compilam em bases de dados, que permitem gerar camadas sedimentares na consolidação de informações. 

Outro ponto a ser considerado nos sistemas dedicados à cadeia do leite é a experiencia do usuário (UX), que deve ser captada na sua essência, aplicando uma metodologia capaz de definir o perfil de cada usuário, adaptando a tecnologia para promover o dinamismo necessário.  

Como vemos, o futuro está na antecipação de informações em todos os níveis, seja operacional, tático ou estratégico. Para isso é necessário entender o passado, aplicando modelos de dados propositivos de pensamento de máquina e inteligência artificial. Nota-se que são inúmeras informações fornecidas em todas as etapas e vários envolvidos e processos para monitorar. O fator chave para orquestrar todo esse universo é a centralização de todas as informações em uma plataforma.  

Os conhecidos Centros de Controle Operacionais (CCO), já aplicados em outros setores, como o de mineração, precisam ganhar espaço na logística do leite. Assim como um quebra-cabeça, cada módulo pode ser implantado parte a parte, iniciando nos preceitos da logística 3.0, no qual eliminamos o papel, até a chegada à logística 4.0, cujas máquinas conversam entre si e possibilitam ao fator humano a concentração de seus esforços nas ações as quais são imprescindíveis: a promoção das relações humanas. 

*Jefferson de Oliveira Monteiro é gerente de Delivery da Engineering, companhia global de Tecnologia da Informação e Consultoria especializada em Transformação Digital. 

Veículo Portal MilkPoint: https://bit.ly/artigo_industriadelaticinios

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